5 de outubro de 2013

O lado positivo da derrota


Uma derrota ajuda sempre a que se pense sobre as coisas. E muito se tem debatido os problemas do FC Porto nos últimos dias. Na altura, achei que o empate frente ao Estoril tivesse sido suficiente para que Paulo Fonseca percebesse que alguma coisa estava a correr mal. Os sinais eram evidentes e apontei-os ainda antes desse empate em «Os erros de Paulo Fonseca». Pensei que seria possível corrigir alguns comportamentos e evitar que a derrota chegasse tão cedo na época, mas estava enganado.

Miguel Lourenço, no blog Reflexão Portista, questiona se o treinador do FC Porto estuda os adversários e acusa-o de preparar mal os jogadores para enfrentar o adversário. Embora concorde com algumas coisas do que aí foi escrito, discordo da ideia principal. Com maior ou menor dificuldade, o FC Poro tem entrado e dominado quase todos os adversários na fase inicial da partida. As dificuldades começam a fazer-se sentir quando adversário altera a sua estratégia e ajusta a sua maneira de jogar. Paulo Fonseca não tem revelado ter uma boa intuição para prever estas alterações no adversário e, pior de tudo, não tem tido o engenho para as contrariar depois de postas em prática.

Além disso, e mais que uma questão táctica, neste momento o maior inimigo dos Dragões é a filosofia de jogo. Talvez por estarem habituados a uma filosofia de posse de bola, que automaticamente retirava uma boa parte das oportunidades do oponente criar perigo, os jogadores não se têm mostrado confortáveis com este estilo de jogo mais vertical. Seria bom que Paulo Fonseca recuasse na sua posição e tivesse o bom senso de voltar ao sistema táctico ou à filosofia de jogo do seu antecessor.

Parece-me cedo para jogar em 4-2-3-1 de forma tão vertical para quem jogou durante dois anos na segurança de um 4-3-3 com a esmagadora maioria da posse de bola. Quando duas partes não estão em sintonia, neste caso a equipa e os jogadores, e uma das partes quer impor as suas ideias, por vezes é preciso, numa fase inicial, chegar a um meio termo. Se é intenção de Paulo Fonseca insistir no 4-2-3-1, então que trabalhe a equipa para jogar em posse de bola e de forma mais calma. Se esse tipo de jogo não lhe agradar e quiser algo mais objectivo, que recue o Fernando e jogue num 4-3-3 com uma filosofia de futebol mais directo à baliza adversária. É isto que faz um grande líder, saber quando tem de dar o braço a torcer.

Claro que vai continuar a haver quem ache que está tudo bem mesmo com as evidências à sua frente, mas espero que Paulo Fonseca não esteja neste grupo. Escudar-se no chavão de que não há equipas invencíveis ou nos erros de arbitragem é fácil, mas a única forma de crescer é identificando e corrigindo os próprios erros. Espero que já estejam identificados e que comecem a ser corrigidos já amanhã frente ao Arouca.

2 de outubro de 2013

FC Porto - "Dr. Jekyll and Mr Hyde" em potência


Para quem não conhece, e de forma muito genérica sem entrar em grandes pormenores, "O Estranho Caso de Dr.Jekyll and Mr. Hyde" retrata a história de um médico com um "caso" severo de dupla personalidade.

Quando o jogo terminou estava conformada. E estar conformada com derrotas é tudo menos normal em mim, não é bom sinal. Estar conformada com uma derrota onde os dois golos sofridos nascem de paragens cerebrais começa a ser caso para alarme.

Não estava confiante, confesso. E acabou por se confirmar tudo aquilo que temia. Calculava que íamos entrar com força e garra mas temia que a equipa não soubesse gerir uma eventual vantagem e tivesse problemas nas bolas paradas dos "Colchoneros" - o ponto mais forte desta equipa, a meu ver. O que me espantou aqui foi também nós termos marcado de bola parada, já que não tem sido muito habitual esta época.

O FC Porto de Paulo Fonseca começa a denotar sérios traços de dupla personalidade. Tem duas caras, duas formas de pensar e ver o jogo em função do golo marcado. Se, no passado, houve alturas em que a equipa só acordava quando sofria um golo, actualmente adormecemos quando marcamos.

Há um Porto com sede de ter a bola, ágil nas movimentações, concentrado a defender, inteligente na pressão e antecipação. Foi este o Porto que tivemos na 1.ª parte do jogo, pelo menos durante os primeiros 30/35 minutos.

Depois, temos um Porto que parece, desculpem-me a expressão, burro que nem uma porta. Não sabe quando pressionar, não sabe segurar a bola, acumula paragens cerebrais e erros infantis. Usa e abusa do passe longo e complica o que é simples. Foi este o Porto que jogou nos segundos 45 minutos, principalmente depois do empate.

Dá-me a sensação que, infelizmente, está incutida uma certa mentalidade de equipa pequena. "Estamos em vantagem? É melhor gerir". E não é de agora. A diferença é que desta vez enfrentámos uma equipa que soube bater realmente o pé, à semelhança do Estoril. Eu não gosto dessa atitude, mas conformava-me se soubéssemos, de facto, gerir o jogo. Quando se quer gerir o jogo, gere-se a bola, não a despachamos sem critério.

Com certeza que não poderíamos jogar todo ao jogo ao ritmo em que começamos, daí que seja tão importante saber segurar a bola e circulá-la. Não sabemos fazer isso. Pelo menos quando o adversário sobe as linhas e aperta um bocadinho, entramos em curto circuito e começa o carrossel de disparates.

Disparates que começaram em Helton, passaram por Josué e Mangala nas faltas ridículas que fizeram e acabaram em Paulo Fonseca quando decidiu tirar Lucho do campo e manter aquele rapaz com a camisola do Varela em campo.

Toda a gente que acompanhava minimamente a equipa espanhola sabia que era muito perigosa nas bolas paradas. Pois o Atlético de Madrid conseguiu cheirar o perigo em todos estes lances e, pior do que isso, fazer dois golos. Nós não sabíamos ou foi mesmo inépcia?

Obviamente que não é a mesma coisa jogar uma equipa recuada e com uma que quer chegar à baliza, mas é inadmissível que o Porto perca completamente o controlo do jogo e acumule erros atrás de erros. Vai ser sempre assim? Se sim, um golo marcado vai-se transformar num motivo de preocupação. É melhor fazê-lo só lá para os descontos, então.

30 de setembro de 2013

Dois pesos e duas medidas

Quando leio comunicados do Benfica, ou ouço os seus dirigentes, a atacar os meios de comunicação social acusando-os, entre outras coisas, de alimentarem o "sistema", dá-me vontade de rir. Ou daria, se isto fosse uma piada. Um clube com um canal de televisão, um jornal e uma revista oficiais e, pelo menos - e vou ser simpático -, mais dois canais de televisão e dois jornais oficiosos ainda tem o descaramento de vir atirar-nos areia para os olhos. Se não vejamos as seguintes capas:


















No dia seguinte ao FC Porto empatar frente ao Estoril com dois golos irregulares dos "canarinhos", o Jorge Jesus ter agredido um policia e um jogador do Vitória de Guimarães ter sido expulso com dois cartões amarelos inventados por simulações do Enzo Pérez, foram estas as capas. Nada do que acabei de mencionar serviu para manchete. Record e A Bola preferiram destacar a vitória do Benfica e dar menor destaque ou simplemente omitir os outros factos.

É claro que esta vontade de destacar o que de positivo se passou foi sol de pouca dura.


















Foram estas as capas que os mesmos jornais nos brindaram após a vitória do FC Porto na recepção ao Vitória de Guimarães.

Olhando a este exemplo, e existem muitos outros (aqui e aqui), é curioso que os dirigentes do Benfica digam (usei o verbo dizer em vez do verbo achar de forma propositada) que a comunicação social beneficia os rivais dos encarnados e, ao mesmo tempo, prejudica o próprio Benfica.

Só mesmo alguém completamente cego, desonesto ou mal intencionado é que se acredita nestas histórias para adormecer meninos que os dirigentes do Benfica inventam para disfarçar, entre outras coisas, o mau futebol, a má gestão e a falta de nível e fair-play de alguns dos seus funcionários.

Um bem-haja a Luís Filipe Vieira.