7 de julho de 2015

Um FC Porto à espanhola

Acabado de chegar ao FC Porto e com a pré-eliminatória da Liga dos Campeões no horizonte, Lopetegui montou uma equipa diferente ao que estávamos habituados: em vez dos tradicionais extremos, foram chamados dois jogadores habituados a jogar pelo centro para jogar nas alas. Foi assim, com Óliver e Brahimi como flanqueadores, que o Lille foi vencido nas duas mãos. Casemiro e Rúben Neves - na altura com apenas 17 anos - funcionavam como médios mais recuados, enquanto Herrera era o médio com mais liberdade. Este modelo de jogo, que facilmente varia para 4-3-3 ou 4-4-2, é muito comum entre as equipas espanholas, sendo Lopetegui espanhol é natural que queira o FC Porto a jogar assim. Foi assim durante algum tempo na última época e, mesmo depois de alterar para 4-3-3, nos jogos teoricamente mais difíceis lá surgia um FC Porto à espanhola: Óliver passava para a ala e o Rúben aparecia no onze em vez do extremo. Quando Casemiro começava a sentir dificuldades durante os jogos era só lançar outro médio - normalmente era Rúben Neves, mas também podia ser o Evandro - e a situação estabilizava.

O que levou Lopetegui a abdicar de jogar claramente do 4-2-3-1 para dar preferência ao 4-3-3? A resposta, embora possa parecer complicada, até é bastante simples: as características dos jogadores. Casemiro, Rúben Neves e Evandro não apresentaram capacidade para cobrir uma área maior do que lhes é pedido normalmente, enquanto o Herrera está longe de ser o médio criativo que o FC Porto precisa. Adrán López e Quintero ainda foram testados no apoio ao Jackson, mas ambos falharam redondamente. O único que parecia capaz de desempenhar qualquer papel que lhe era pedido era Óliver, mas mesmo este tinha um defeito enorme e que não podia ser ultrapassado: apenas pode estar num sítio de cada vez. A solução encontrada, como já disse, foi alterar um pouco a forma de jogar e dispor os jogadores em campo num sistema mais próximo ao 4-3-3.

Um ano depois, parece que o 4-2-3-1 não foi esquecido. Reforços como Alberto Bueno - que tanto joga como avançado mais móvel como atrás no próprio avançado - e  Danilo Pereira, Imbula, André André e Sérgio Oliveira - portadores de uma capacidade física e de condução de bola acima da média -, dão a entender que Lopetegui quer voltar ao sistema que mais confiança lhe dá.

Com a pré-época já em andamento, não falta muito para que a equipa realize os primeiros jogos de preparação e se desfaça por completo esta dúvida. Até lá, vão valendo as teorias em volta de um plantel (aparentemente) sobrecarregado de médios.

6 de julho de 2015

Sobre a Mística (ou a falta dela)

As notícias sobre ou em torno do FC Porto não param de surgir: Maxi Pereira pode trocar o Seixal pelo Olival; Imbula foi contratado por €20 milhões; Antero Henrique é suspeito de vários crimes; Casillas é apontado como reforço; e ainda não está fora de hipótese Óliver fazer o caminho inverso de Jackson, nem que seja apenas mais um empréstimo de um ano. No meio disto tudo, Quaresma decidiu dar uma entrevista ao Expresso onde, entre outras coisas, afirma que falta Mística no clube porque os mais novos não sabem o que é o FC Porto.

Quaresma tem razão num ponto, foi notório que em certos momentos na última época faltou ali uma pontinha de atitude. No entanto, acaba por denunciar que não está a 100% por dentro do assunto quando se assume como um dos portadores da tão badalada Mística. Mas vamos por partes.

Em primeiro lugar, importa referir que foi evidente durante quase toda a época que o Mustang merecia ser titular. Até Dezembro Tello foi um jogador que nada acrescentou à equipa e quando este subiu de forma, foi Brahimi quem desapareceu. Quaresma foi ficando com as sobras e foram raras as vezes em que não mostrou serviço. No entanto, Lopetegui deu sempre preferência ao espanhol e ao argelino, situação que incomodava visivelmente Quaresma, ao ponto de não conseguir disfarçar o mau humor quando estava no banco ou no momento em que era substituído.

A sensação que fica é que o actual número 7 portista é um óptimo jogador para ter em campo, mas que se torna um fardo em todos os outros momentos. Pior do que os elogios para o actual treinador do Sporting ou auto-proclamação como um dos portadores da Mística portista, foi o facto de ter assumido que não tem perfil para treinador por não ter paciência para aturar os diferentes feitios dos jogadores. Como é possível alguém querer ser um exemplo no balneário se lhe falta a capacidade para compreender o que se passa com as outras pessoas?

Esta entrevista foi dada numa altura em que 2014/2015 já tinha ficado para trás e, ainda que possa ter sido involuntariamente, Quaresma volta a meter o dedo na ferida. São recorrentes os episódios em que o Harry Potter fala demais e, de certa forma, estas situações acabam por resumir a carreira atribulada que teve. É o que acontece quando a cabeça não acompanha o talento dos pés.

É verdade que tem faltado Mística no FC Porto, mas isso não se conquista necessariamente com os anos de casa, é uma coisa que nasce com as pessoas e/ou uma questão de atitude. Não deixa de ser curioso que, numa época como a última, tenham sido jogadores como Óliver, Casemiro ou Tello daqueles que mais lutaram pelo clube. E neste momento o FC Porto precisa mais de atitudes do que de conversa. A Mística virá por acréscimo.